A alma do ser humano revelada na pintura da Terra de Vera Cruz
A figura humana sempre serviu como sedução para Eliardo França, um dos mais prestigiados ilustradores brasileiros que, ao lado da escritora Mary França, vem realizando nas últimas quatro décadas um bem-sucedido projeto de livros infantis e infanto-juvenis, com sucesso editorial no Brasil e traduções em diversos países, tendo vendido mais de 15 milhões de exemplares e formado algumas gerações de leitores. Mas o artista plástico, nos últimos 15 anos, além de dedicar parte de seu tempo ao desenho, mergulhou na pintura e, para celebrar os cinco séculos do descobrimento do Brasil, criou a série de 10 óleos sobre tela intitulada “Terra de Vera Cruz”. A mostra chega a Brasília, no Espaço Cultural Zumbi dos Palmares, na Câmara dos Deputados (Anexo I – 21° andar), entre 3 e 20 de novembro de 2009.04/11/2009
O que importa é o ser humano, é a alma do ser humano, enfatiza o artista. A boa pintura é a que tem alma, diz com convicção. Em “Terra de Vera Cruz”, Eliardo França quis pintar o ser humano e a isca foi o primeiro contato entre seres humanos de culturas completamente distintas. A intenção desta série de pinturas, afirma Eliardo, é refletir sobre a identidade cultural brasileira, tendo como referências a carta de Pero Vaz de Caminha, considerada a certidão de nascimento do Brasil, e a chegada dos portugueses ao novo mundo. “O que mais me motivou foi o confronto de civilizações, o entrechoque de civilizações e de raças”, garante o artista, que também buscou inspiração nas narrativas de Américo Vespúcio, Hans Staden, Jean de Léry e André Thevet. A idéia da antropofagia desenvolvida por Oswald de Andrade e motivadora do aparecimento da ala radical do Modernismo brasileiro também foi fonte de pesquisa de Eliardo, que deixa claro: “A série não é uma ilustração da carta do Caminha, nem dos escritos do Oswald, nem de nada do que li sobre a chegada dos portugueses ao Brasil. Definitivamente, não se trata de uma ilustração, a série é um conhecimento transmitido para uma idéia plástica. Depois de pesquisar, deixei as idéias fluírem e, quando fui para as telas, só me preocupei com a pintura”.
O artista plástico brasileiro, neto de um português nascido na cidade de Nelas, começou a pensar na idéia de pintar as questões do descobrimento em 1995, cinco anos antes das comemorações dos 500 anos do desembarque de Pedro Álvares Cabral. O início das pinturas aconteceu entre 1996 e 1997 e, a partir de 2000, a exposição passou a percorrer o Brasil. Mas o próprio Eliardo espera que a série de pinturas “Terra de Vera Cruz” seja adquirida por uma instituição e ganhe mais visibilidade. Segundo Paulo Roberto Pereira, doutor em Letras e professor da Universidade Federal Fluminense, a denominação “Terra de Vera Cruz” é perfeita, pois basta lembrar que este foi o nome que Pedro Álvares Cabral deu à terra que encontrou em 22 de abril de 1500 e essa recriação dos primeiros momentos da história colonial brasileira, traduzida na pintura de Eliardo França, revela o olhar atento do artista aos aspectos desencadeados com a chegada dos nautas portugueses à terra nova. A pintura de Eliardo é para ver, além de um convite a pensar sobre o princípio seminal do Brasil, o encontro entre o adventício e o nativo numa terra sem fé, sem lei, sem rei, o que, para Paulo Roberto Pereira, não comporta indiferença. Ali já estão presentes as contradições culturais, políticas, religiosas e econômicas que marcam dramaticamente a vida brasileira ao longo destes cinco séculos.
Além de “Terra de Vera Cruz”, a exposição também traz dois trabalhos inspirados em Miles Davis – em acrílica sobre cartão sobre aglomerado – e que sintetizam uma nova vertente trilhada por Eliardo França. Um quadro intitulado “Summertime” insinua uma cortante rajada curta do sopro de Miles Davis ao ganhar tons de vermelho e o artista plástico, como um jazzista, revela em sua pintura que o essencial é deixar fluir a sensibilidade do criador. Afinal, o jazz é uma linguagem musical cuja vitalidade está na transformação permanente. O outro quadro, “Miles Davis III”, expressa a maneira de criar e transformar a música como uma tentativa de sempre inventar maneiras de tocar, como afirmava Miles Davis. E Eliardo França partiu daí para avançar rumo a novos caminhos em sua arte, criando uma pintura excitante e vigorosa, embalada pelo jazz dos mestres.
Ainda inspirado pelo jazz de Miles Davis, Charlie ‘Bird’ Parker e Dizzy Gillespie – a santíssima trindade do bebop –, o artista plástico Eliardo França vem se envolvendo, cada vez mais, com a música criativa. O resultado deste mergulho no universo dos mestres jazzistas é a figura humana revelada sem limites em uma série de óleos sobre tela, acrílica sobre madeira, acrílica sobre cartão e desenhos. O impacto do jazz na pintura de Eliardo França pode ser sentido por inteiro nas telas reunidas em Brasília: “O Maestro”, “Dizzy e o Bebop”, “Sente e ouça” e “Sem Título”. Esta mostra também é puro jazz.
O universo do tango completa a mostra. Esta música vigorosa e a dança sensual ganharam o mundo em shows, performances, gravações, filmes e em pinturas. Tendo como referência o mestre Astor Piazzolla, esta série de seis pinturas em acrílica sobre cartão sobre aglomerado é um convite à emoção. A vibração de cada gesto do casal pode ser ouvida como se a música fluísse de cada quadro, instigando e seduzindo.
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